COMUNICAR COM O CORAÇÃO

Mais do que trocar palavras e informações, comunicar em família é a troca sábia de emoções, sentimentos e preocupações. No fundo, é partilharmo-nos a nós próprios como um todo e estarmos dispostos a receber o outro como ele é. Nessa troca, os corações encontram-se e as relações saem mais fortes.

Hoje, as crianças quase não brincam lá fora, em ambiente espontâneo, por isso estão muito mais em casa, com a família. Portanto, como estão todos juntos no mesmo espaço, comunicam mais e melhor, certo? Errado, diz-nos a psicóloga Ana Cardoso de Oliveira: “Pode até falar-se muito, mas partilha-se pouco. A comunicação de muitas famílias é demasiado organizada; fala-se sobre a organização do tempo e das tarefas, o que vamos fazer, a que horas, quem vai buscar os miúdos à escola, qual a ementa do jantar… mas isto não são verdadeiros momentos de partilha. As famílias estão mais próximas – as casas são mais pequenas, os miúdos não passam tempo a brincar na rua, deitamo-nos todos mais tarde… –, mas essa aproximação não criou uma maior intimidade”.

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A verdade é que comunicar de forma efetiva é muito mais do que falar e trocar informações. Aliás, se pensarmos bem, nunca se comunicou tanto como agora, com as pessoas constantemente agarradas aos telemóveis a enviar sms e a atualizar e comentar estados no Facebook ou no Twitter. No entanto, de acordo com a psicóloga, “tudo isto otimiza a não comunicação. Porque comunicar não é falar do quotidiano, dizer como correu o dia, o que comi ao almoço ou que filme fui ver ao cinema. Comunicar exige intimidade, exige que se fale dos sentimentos, que se exponha quem somos e não o que fazemos. A expectativas que criamos – e que nos são impostas de fora – de como a nossa vida devia ser, faz com que muitos de nós, ao comunicarmos, só transmitamos ao outro uma espécie de ego externo; só nos damos por fora, como nas fotografias que as pessoas estão constantemente a colocar no Facebook. ‘Olhem o meu jantar.’ ‘Olhem onde vim passar férias.’ ‘Olhem pra nós tão divertidos a brincar no parque com os miúdos.’ Mas não é à toa que as pessoas mais felizes são as que têm menos fotografias. Porque estão ocupadas a viver. Quem é que, se estiver a passar um bom bocado, se lembra – ou tem tempo de – estar a tirar fotografias e a publicá-las no Facebook a torto e a direito? Mas é nisso que as pessoas hoje se concentram. Querem mostrar aos outros que também estão apaixonados, também fazem programas nos sítios da moda, também têm um emprego que adoram”.

Atualmente, tudo é comunicação verbal, tudo é fotografia, tudo é conversa. Mas comunicar é muito mais do que isto. A comunicação passa por falar do que somos. Mas, refere Ana Cardoso de Oliveira, “eu só consigo fazer isso expondo as minhas fragilidades, as minhas dificuldades. É preciso acabar com a ideia de que temos que estar sempre bem para os outros, de que temos que ‘ficar sempre bem na fotografia’. Habituámos as nossas pessoas a essa ideia de força, e depois qualquer fragilidade é vista como uma derrota. Não há espaço de partilha nas famílias, momentos para ‘deitar conversa fora’; quando estamos juntos temos que estar a fazer alguma coisa”.

A culpa é do tempo?
Todos nos queixamos do pouco tempo que as famílias passam juntas. E, claro, não é o ideal, mas, ainda assim, ao nível da comunicação, esta é uma falsa questão, diz-nos a psicóloga. Segundo Ana Cardoso de Oliveira, o tempo que as famílias passam juntas chega para que os seus elementos estabeleçam uma comunicação eficaz, se as coisas forem feitas da forma certa: “Tem que haver um contínuo na comunicação. É preciso preparar a comunicação; não é de um momento para o outro que as pessoas se abrem sobre as suas questões, que baixam a guarda e mostram as suas fragilidades. Se perguntamos a alguém ‘como estás’, a resposta óbvia é ‘estou bem, obrigada’, porque é a única resposta possível no imediato. Depois, com a continuação da conversa, um conta como o dia correu, o outro também, a conversa torna-se mais íntima e estamos prontos para partilhar verdadeiramente. Por exemplo, se logo quando vamos buscar os miúdos à escola fazemos o caminho para casa a conversar sobre as coisas que aconteceram durante o dia, quando chegamos a casa já temos a comunicação instalada e tudo se torna mais fácil. Mas, na maioria das vezes, a mãe aproveita aqueles momentos no carro, em que finalmente parou de trabalhar, para ligar à avó, ou para ligar ao marido e pedir-lhe que passe no supermercado e compre arroz, ou mesmo para ligar para o escritório e terminar um assunto que ficou pendente. E, quando as crianças tentam falar, ouvem um ‘shiu, não vês que estou ao telefone?’. Depois, quando chegam a casa, os miúdos querem contar as coisas que lhes aconteceram, mas a mãe diz ‘vai tomar banho’, ‘tira os brinquedos do chão da sala’, ‘enxuga-me esse cabelo’, ‘veste o pijama’. O problema é que dar ordens não é comunicar”.
Para que a comunicação seja eficaz, há que colocar o recetor na posição de “ouvir”, pelo que aprender a comunicar passa por aprender a estar calado. E, claro, a comunicar apenas com as pessoas que estão presentes (sem telemóveis, sem Facebook, sem televisão…). Comunicar de forma eficaz passa por se estar, efetivamente, com o outro. Tem que haver um espaço e um tempo onde se possa conversar sem ser interrompido.

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O que importa são as pessoas
A família é o local onde não se aplicam regras restritas e inflexíveis, e onde os benefícios são sempre mais importantes que os princípios. Focar a comunicação nos benefícios significa, simplesmente, dar mais importância às pessoas, às suas preferências e métodos, do que às normas e regulamentos. Isto implica um grau elevado de flexibilidade: não há um tempo certo, uma forma certa ou um lugar certo para a comunicação na família. Criar regras para a comunicação torna o processo oficial e mecânico, em vez de emocional e afetivo.
Outro aspeto importante é que, embora a comunicação seja essencialmente conteúdo, este é muito influenciado pela forma. Portanto, não devemos assumir uma postura demasiado negativa ou sarcástica, sob pena de destruir o “calor” e entusiasmo das conversas em família. Isto não quer dizer que a comunicação em família não pode criticar ou corrigir. Claro que pode. Mas, ainda assim, há formas de o fazer mais positivas do que outras, e são essas que interessam. Foquemo-nos numa forma de comunicação que valorize, incentive, apoie e tranquilize.

Por último, convém lembrar que a comunicação em família não tem um horário pré-estabelecido e não obedece a uma ordem do dia. Pelo contrário, ela é o que acontece enquanto achamos que estamos a fazer outras coisas: nas conversas casuais e espontâneas, na mão que procura a outra quando se cruzam no corredor, nos abraços molhados na hora do banho, nas guerras de almofadas no sofá, no beijo roubado na cozinha enquanto os miúdos estão entretidos com a televisão, no puzzle que não há maneira de conseguirmos terminar, na loiça que aparece por magia na máquina de lavar enquanto a mãe e o pai estão ocupados a estender a roupa, na história e nos mimos na hora da cama, no olhar cúmplice de “finalmente sós” quando se cai exausto no sofá para ver a série preferida ou se fecha a porta do quarto com cuidado.
Porque comunicar é ser capaz de olhar para a realidade pelos olhos dos outros, e aprender algo com isso.

Fonte: http://www.paisefilhos.pt/index.php/familia/pais-a-maes/9036-comunicar-com-o-coracao